Demasiado humano

É natural que as organizações se preocupem rigorosamente com cada detalhe na gestão de pessoas, e mesmo sob o estrelado manto dos zelosos cuidados existentes numa espécie de religião ultramoderna dos Recursos Humanos, fortes ventos sempre estão a indicar chuvas pesadas e temporais que podem destelhar as esperanças incluídas no planeamento estratégico, e abalar razoavelmente a fé dos empenhados fiéis corporativos.

Conhecimento e prazer no trabalho
Obviamente os salários e benefícios pesam sobre as cabeças dos incontáveis trabalhadores que fazem a roda da economia girar, e neste processo contabilístico atrelado às responsabilidades financeiras que dele decorrem, estabelece-se o refinado jogo da permanência e do turismo profissional com o qual muita gente transita com o seu “poderoso” passaporte ideológico. Então, para além do dinheiro e da estabilidade que via de regra lhe acompanha, os valores que se estabeleceram há algumas décadas, basicamente, dizem respeito ao psiquismo humano, como são os prazeres associados aos desafios que o quotidiano laboral pode oferecer, numa espécie de encantamento a povoar as mentes no universo pessoal, a raiz de uma questão tão antiga quanto a própria ideia de unir trabalho e emoção, uma marca registada da nossa espécie em constante evolução. Ter um sentido robusto na vida não é porventura o motor filosófico a que tantos aspiram ao longo da história, e acaso não se trata do tema perseguido por pensadores ao redor do globo?

Como conciliar os afazeres diários e o gosto íntimo – tão subtilmente individual e, portanto, trabalhoso de ser alcançado em escalas que adentrem as fileiras produtivas –, se a própria formação das lideranças pode estar comprometida em algum ponto que normalmente se relaciona ao ajuste fino aqui pretendido na capacidade de planeamento? Ou seja, caso o líder não enxergue a complexidade exigida pela sua equipa (talvez falte nele próprio tal perceção interior aprofundada), de que vale apenas bater na tecla das muitas técnicas hoje disponíveis na condução das atividades, se a orquestra aparenta estar afinada em determinadas ocasiões, todavia noutras…

Aprofundamento sobre o psiquismo
A nossa espécie avançou por estradas específicas, como a tecnológica e a científica, gerando informações em velocidades cada vez mais surpreendentes, e os resultados são altamente reforçadores, ativando o desejo de pisar com vigor no acelerador deste carro que promete ainda mais viagens adrenérgicas. Contudo, o mesmíssimo homo sapiens ainda patina na trilha primitiva das emoções, em razão de vê-las pobremente como um apêndice que instiga ao fazer das coisas, sem se apaixonar devidamente por incomensurável capacidade de modular com brilhantismo cada gesto humano se houver melhor compreensão a seu respeito, bem como a coordenação das muitas variáveis a que se sujeita: predispostas informações genéticas desencadeadas ambientalmente a florescer em motivação nas variadas escalas que vão do simples acordar ao intrincado desejo inconsciente de se comparar em ganhos, ações e resultados entre os colaboradores – o lado evolutivamente natural da inveja, consistentemente estudado por instituições como a Universidade de Bonn, na Alemanha, ou na norte-americana Harvard, com as suas pesquisas acerca do dispositivo biológico de aquisição da moral, ou a atual e exagerada necessidade de reconhecimento que abunda em vários países, por exemplo, mas que é mantido nos porões da ditadura do desconhecimento (e do medo) de grossa fatia populacional.

O autoconhecimento especializado
Como estimular os muitos líderes a recorrerem ao seu próprio interior em constante exercício acerca de raízes profundas que os tornam perfis incompletos na gestão de pessoas? Ou melhor: por que lemos o livro dos temperamentos individuais tão superficialmente, se são eles que nos podem ensinar a evoluir pessoal e profissionalmente, qual a claríssima divisão constatável nos modelos de liderança: (A) líderes focados nas relações interpessoais e (B) líderes imersos no gerenciamento de resultados? O que falta num, pode existir no outro, mas em que proporção?

Quando o líder investirá no aprofundamento (não é simples, apesar do autoengano fazer os seus truques ilusórios do costume) necessário em si e junto dos seus, em busca de identificar cada motivação, cada grau de conhecimento, cada velocidade de aprendizagem, cada barreira, cada transformação, enfim, cada particularidade que, a seu turno, é empregada, estratégica e delicadamente, em conjunto ao próprio liderado? “Aquele que se analisou a si mesmo, está deveras adiantado no conhecimento dos outros”, tais as profundas palavras do escritor e filósofo francês Diderot (1713-1784). O autoconhecimento especializado é condição sine qua non.

Há discussões imensas a respeito da retenção de talentos, mas foge-lhes o cerne humano no seu reduto mormente desconsiderado, uma ala mais enevoada, cujos óculos embaciados dificultam a visão consideravelmente. Chegamos a mais um ponto crítico do desenvolvimento, mas fomos nós que nos encaminhamos a tal, por imperceptível que seja, e nos tornamos demasiado humanos para nós mesmos pela dificuldade de romper a complexa teia que tecemos. É parte do preço a se pagar pela evolução, e a demanda criativa (sempre de fundo psíquico, entrelaçado ao social) aponta para uma superação, qual um novo e necessário passo adaptativo. Na ponderação de Santo Agostinho (354-430), “Não vás para fora, volta a ti mesmo, no homem interior habita a verdade”, a inclinação para a autoavaliação segue de perto a máxima do Oráculo de Delfos, na Grécia Antiga, “Conhece-te a ti mesmo”. Mergulhar nos oceanos íntimos não é mais uma opção, tornou-se uma exploração legítima e necessária, e talvez as organizações possam investir nas áreas demasiado humanas a fim de explorar verdadeiros tesouros, não prontos, é claro (esqueçam os baús que fazem reluzir com as suas cinematográficas patacas douradas), mas ansiosos por estímulos.

Fruto de conhecimento rigoroso, os desafios condizentes são, por sua natureza, verdadeiros convites que fazem oscilar os lados da estabilidade, ao reter o talento em foco, e o da instabilidade entranhada no jogo que se instala no horizonte proposto pelas lideranças. Naturalmente, alguns atiram-se mais a tais cenários, mas a atração pode ser irresistível, pois a natureza humana sempre se deixou levar pela curiosidade e exploração futura, sem se dar conta do fundo genético e evolutivo que a sustenta desde o passado. Vale reafirmar, porém, não é qualquer proposta que atrai, dada a complexidade alcançada até aqui (o que dirá mais para frente!), então, é essencial arregaçar as mangas psicológicas e suar a camisa neste terreno ainda pouquíssimo explorado. Boa viagem!

Por: Armando Correa de Siqueira Neto, psicólogo e mestre em liderança

Artigos Relacionados: