De vilão a herói

Um dos géneros populares de Hollywood é o do inocente que é visto como vilão até que a verdade se descobre e o suposto vilão se revela afinal um genuíno herói. A vida fora do ecrã não costuma ser tão linear mas o caso de Rui Pinto começa a parecer uma narrativa com contornos hollywoodescos. O hacker que agora se apresenta como whistleblower era um criminoso mostrado em algemas e está agora a mudar de pele e a ser transformado em herói.

Vamos por partes: há crimes e crimes. Aceder a informação de outrem para tirar vantagem, chantagear, roubar ou perseguir objetivos ignóbeis é certamente uma prática criminosa e deve ser tratada como tal. Denunciar crimes é outra coisa. Se a denúncia envolver hacking, então o hacking é um meio e não um fim. Se o acesso indevido merece ser julgado, a informação exposta não deve ser ignorada por ter sido obtida da forma errada.

Em Portugal a justiça tem vivido muito do formalismo, o qual com frequência se sobrepõe à substância. O caso Rui Pinto constitui uma soberana oportunidade para repensar práticas. As sociedades precisam de estabilidade e de mudança. O sistema de justiça tem protegido demasiado a estabilidade de um status quo que degrada a confiança na justiça. A lentidão, a complexidade e a perceção de que os poderosos podem jogar com o sistema protege este status quo. Se a estabilidade se tem tornado pantanosa este caso é uma oportunidade para agitar as águas, para olhar mais para a mensagem do que para o mensageiro – nos leaks de Luanda e nos outros todos, incluindo os futebolísticos. A interrupção do populismo também passa por aqui: por deixar de dar argumentos aos arautos do radicalismo. Estabilidade a mais acaba por gerar, mais à frente, mudanças radicais.

Por: Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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