De “proletariado” para “cognitariado”


Mário Ceitil, presidente da Associação Portuguesa de Gestão das Pessoas (APG), respondeu à revista Líder sobre os grandes temas da cimeira de liderança deste ano.
Preocupado com o futuro daqueles que não caminham e se adaptam com a revolução digital, Mário Ceitil fala das mudanças não só na Gestão das Pessoas como das próprias vontades das pessoas, acusando uma passagem do “proletariado” para o “cognitariado”.

Ao fim de três anos enquanto parceira institucional da Leadership Summit Portugal, o que significa para a APG continuar a renovar o seu apoio a um evento deste género no nosso país?

Mário Ceitil (MC): Desde logo, é fundamental para a APG associar-se às iniciativas que visem dignificar, engrandecer e divulgar a Gestão das Pessoas, sobretudo, e naturalmente, as que têm maior qualidade e projeção nas comunidades que têm esta área de intervenção como foco e/ou como ponto de interesse. Em concreto, relativamente à Leadership Summit Portugal, e para além da boa e antiga relação pessoal e institucional que a APG vem mantendo com os organizadores, este evento tem vindo a crescer em termos de importância, ocupando hoje um espaço fundamental como grande evento na área da Liderança. Assim sendo, entendemos que a continuidade da nossa colaboração e a renovação do nosso apoio institucional à LSP está claramente alinhado com o foco da APG, onde porfiamos na afirmação inequívoca de que “o melhor do mundo está nas pessoas”. E a Liderança é, seguramente, uma questão essencial para que as organizações possam realmente fazer despertar o melhor que existe nas pessoas, ao serviço de um propósito maior.

Como se têm vindo a alterar as necessidades dos profissionais que a APG ajuda e como é que isso muda a própria APG?

MC: A área da Gestão das Pessoas tem vindo a registar inúmeras e muito variadas mudanças que, no fundo, são expressão não só pelos novos desafios que as organizações enfrentam como também pela crescente complexidade cognitiva e emocional das próprias pessoas. Das suas motivações, das suas crenças e paradigmas, e dos comportamentos consequentes. Eu caracterizaria essa evolução para a complexidade, que temos vindo a registar ao longo das diversas revoluções industriais, como a passagem do “proletariado” para o “cognitariado”. Isto tem consequências ao nível das próprias conceções do trabalho, que deixa progressivamente de ser aquela coisa que as pessoas fazem apenas para conseguir “pagar as contas”, para se tornar num espaço de construção do sentido de cidadania e de verdadeiro desenvolvimento e crescimento pessoal. Neste contexto de complexidade crescente, os profissionais de Gestão das Pessoas têm obviamente desafios acrescidos, designadamente no que respeita à imperatividade de encontrar novas soluções, novas ferramentas, que ajudem as organizações a fazer da complexidade uma oportunidade e não uma ameaça. Finalmente, sendo a APG a Associação mais representativa na área da Gestão das Pessoas, todo este contexto tem inevitavelmente reflexos, não direi na natureza nem no nosso foco institucional, mas no nosso modo de funcionamento, sem dúvida, onde reconheço que a timidez dos passos que temos dado, apesar de necessários, não permitem ainda à Associação dar “o golpe de asa” que nos permita “ir mais além”.

De que maneira a aquisição da revista Pessoal pode ajudar a avançar os objetivos da APG?

MC: A revista Pessoal é propriedade da APG desde a sua fundação. O facto de termos realizado recentemente uma parceria com uma entidade autónoma, para uma renovação profunda da revista, que passa igualmente pela alteração da sua designação de Pessoal para Pessoas, está alinhado com o processo de transformação que mencionei no ponto anterior, e prossegue este objetivo de servir cada vez melhor os sócios, acompanhado as evoluções que se vão registando nesta área.

E como responderia a APG à grande questão da cimeira de liderança: Are We Going Together?

MC: Creio que em todas as grandes revoluções e evoluções ao longo da História, houve sempre preocupações de criar movimentos suscetíveis de conglomerar um número cada vez maior de pessoas para uma causa comum. No entanto, em todos os grandes movimentos da História, também se verificou que esse efeito nunca aconteceu de uma forma imediatamente universal. As sociedades e as pessoas são, quer se queira, quer não, desiguais. Alguns vão mais depressa, outros mais devagar e outros… nunca vão. Por isso, e não havendo aqui espaço para grandes desenvolvimentos, julgo que, no que diz respeito à preocupação atual de saber quantas pessoas vão “surfar” a onda da sociedade digital e vão progredir no aparente “caos” de uma sociedade que está a gerar uma profunda reconceção de alguns dos valores tradicionais que alicerçam a nossa cultura e os nossos paradigmas mais profundos, a nossa maior preocupação, do ponto de vista social, está centrada naqueles conjuntos de pessoas que poderão ficar na cauda deste processo inexorável e muito rápido de transformação. Como já aconteceu em várias situações anteriores, acredito que aqueles que conseguirem adaptar-se bem às novas realidades vão passar a ter vidas ótimas, tendo cada vez mais o “mundo na ponta dos seus dedos”. A preocupação subsiste em relação aos (potencialmente muitos) outros, que correm o risco de serem arrastados para “o caixote de lixo” da História.

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