Da fraqueza

Quando acabei de ver o Joker não me pareceu que quem o visse não pudesse ficar com a mesma sensação: a de que o filme incita à violência numa lógica de que, atingido o desespero, já só se pode desembocar nela. As críticas veem no filme as coisas mais díspares e até antagónicas, mas li jornais de grande tiragem em sociedades em que a violência está a aumentar a fazerem um downplay interessante do filme.

Nem fotografia poderosíssima de Nova Iorque, grande parte do filme foi filmado nas ruas de Nova Iorque e de New Jersey efetivamente, o Bronx, as escadas, o metro, as espeluncas em que vivem…, nem a caracterização com cores intensas do Joker ou as danças espetaculares do Joaquin Phoenix, nem a sua imagem monumentalmente cadavérica, nervosa, amarelada, daquela cor do fim de linha, nada, nada se sobrepõe à sensação final de se ter visto um filme perigoso.

O Joker é a pobreza, a desgraça, o alheamento, a desigualdade, as diferentes sortes, a guetização, a falta de alternativas, os trabalhos precários, a assistência aos pais a envelhecerem doentes, o sofrimento na pele de todas as formas de violência, a solidão, o convívio ou exposição a esta mesma realidade da vida de milhares de pessoas, a doença, a loucura, a fealdade do meio em que aquelas vidas decorrem, os abusos dos poderosos, as manifestações dos nossos dias. É a luta de uma pessoa para superar isso. É a queda constante, o desespero, a loucura, a violência. E depois a heroicização dessa violência como meio de superar problemas que todos sabemos existirem, mas que ainda não encontramos meios, ou capacidade, ou vontade, para os resolver. O líder, no Joker, é um assassino, um palhaço que assassina três executivos numa noite no metro que bêbados se preparavam para se divertirem a espancá-lo. Torna-se depois num símbolo de todos aqueles que estão insatisfeitos com a vida que levam e não encontram saída. Não cabem aqui as teorias de Maquiavel de que é melhor ser temido que amado, mas o líder tem de ser feroz como um leão e dotado de sabedoria até porque nada disto é verdade. O Joker é só um homem que há muito já ultrapassou o limite da humanidade e que personifica a vontade de muitos que também já vivem do lado de lá. O filme não me impressionou – contei todos os minutos até que acabasse – mas é fotográfico nos problemas que levanta e explora todas as piores, ou mais fortes, emoções na narrativa da solução que encontra. Se calhar, como diz o crítico do The New York Times, Todd Phillips, o filme não tem esta densidade e é uma piada que levanta discussões sérias. Ou, se calhar, vivemos tempos em que estamos mais vulneráveis a líderes sem soluções, mas com atitude. Numa “road to nowhere”.

Por: Sandra Clemente, jurista

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