Da fragilidade da indiferença

Quando este artigo for publicado já terão sido as eleições europeias. Enquanto o escrevo decorre a campanha eleitoral. Na véspera, o Expresso diário trazia na primeira página uma fotografia que era todo um programa não só para o partido que a proporcionou, mas para a campanha em geral. Se liderar implica arrastar pessoas, então esta campanha foi a antítese dela. É por isso que este artigo tem cabimento numa revista sobre Liderança. E basta ver a fotografia, um caso do clássico “uma imagem vale mais…”. Uma mulher bronzeia-se na praia enquanto uma comitiva partidária de costas voltadas para ela fala aos órgãos de comunicação social com o mar como cenário. Independentemente do que se passa realmente na fotografia, o simbolismo da imagem é tremendo. Ninguém quer saber e ninguém faz um esforço para se adaptar – ah! adaptabilidade, outra das características da liderança – a eleitores novos ou mudados, com interesses diferentes, em tempos que eram claramente outros. Já agora, o ponto de partida conhecido na altura em que foi tirada a fotografia era de uma abstenção que roçou os 70% nas eleições anteriores para o Parlamento Europeu.

Já na Dinamarca, um candidato de um partido de centro direita decidiu publicar um anúncio no site pornográfico Pornohub já que “metade da Internet é pornografia e é preciso estar onde estão os eleitores – também num site porno”. E este é “um recurso divertido”. O seu país está em 28.º lugar no ranking de países que mais acedem ao Pornohub, três quartos dos visitantes são homens. Pelo mundo fora, cem milhões de pessoas visitam o site diariamente. Quanto à adaptabilidade ninguém tem dúvidas. E eu, pessoalmente, não tenho nenhuma quando Joachim B. Olsen, o candidato, diz que a sua campanha é 95% séria. Se não fosse, não se tinha dado ao trabalho de fazer estas contas. Vamos ver se os eleitores também se adaptam ao novo tipo de comunicação.

Não é descabido falar do soberbo Brexit, mas o filme da HBO, que retrata a performance de Dominic Cummings, o estratega político que liderou a campanha para a saída do Reino Unido da União Europeia, no referendo de 2016, usando as redes socais, e conhecemos  bem o resultado. A estratégia foi depois exportada para outras eleições ao redor do mundo.

“Um líder é bom ouvinte e comunica-se bem”, dizem todos os manuais sem exceção. Não é a única característica da liderança, mas sobretudo o primeiro parágrafo – porque diz respeito a Portugal – faz pensar na tremenda fragilidade disto tudo.

Por: Sandra Clemente, jurista

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