Corações de máquina

Um dos temores nascidos com a aproximação à era digital encontra-se no domínio da espiritualidade e das emoções. Será que as máquinas vão desenvolver emoções? Virão a ser capazes de usar e manipular as nossas emoções?

Estas já são preocupações importantes para as empresas que procuram, por exemplo, automatizar os serviços de interface com os clientes: como pode um cliente pensar que ao falar com uma máquina está a falar com uma pessoa? A preocupação é legítima, pois levanta complexas questões éticas. Curiosamente, há um outro ângulo sobre o qual se fala menos mas que é igualmente merecedor de reflexão: e se os nossos corações tiverem eles mesmos mecanizados? E se as máquinas pudessem ajudar a humanizar o que foi tornado mecânico? A hipótese não é nova e pode ser poética, mas merece reflexão.

Eis uma passagem encontrada num artigo de um prezado colega, Robert Chia, professor na Adam Smith Business School, em Glasgow. A história foi contada por Chuang Tzu, sábio chinês e refere-se a um lavrador de idade avançada que laboriosamente rega o seu campo com um simples regador. Ao ver o esforço do velho, um homem mais novo exorta as virtudes da eficiência:

“Existe uma máquina para este tipo de coisas”, diz Tzu-kung. “ Em apenas um dia consegue regar uma centena de campos, exigindo muito pouco esforço e produzindo excelentes resultados. Não gostaria de ter uma?”.

O agricultor levantou a cabeça e olhou para Tzu-kung: “Como é que funciona?”.

O jovem replicou: “É um mecanismo feito pela moldagem de um pedaço de madeira… chama-se um poço de varredura”. O agricultor respondeu com uma gargalhada: “Ouvi o meu professor ensinar que onde existem máquinas, o mais provável é haver preocupações com elas e onde existem essas preocupações, de seguida far-se-ão corações de máquinas. Com uma máquina no nosso peito, estamos a estragar o que era puro e simples e sem isso a nossa vida espiritual não conhece descanso… não é que eu não conheça a máquina sobre a qual fala – mas teria vergonha de a usar!”.

Na sua simplicidade, o relato mostra que o problema pode necessitar de reenquadramento: e se o real desafio estiver não nas máquinas com os seus corações mecânicos, mas nos corações mecanizados das pessoas? A ser este o desafio, deixemos às máquinas o que é maquinal e enriqueçamos o que é genuinamente humano com a humanidade que por vezes escasseia na prática organizacional.

Por: Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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