Condições básicas de liderança

Na verdade, este artigo são duas recomendações. A luta da Greta Thunberg contra as alterações climáticas começou com uma pergunta: para quê estudar se não haverá futuro? Está em risco a nossa existência neste planeta. Suponho que o mesmo se possa perguntar cada vez que falamos de liderança. Queremos ser líderes, mas a condição primeira é a existência de um qualquer espaço para exercer a liderança. Em Portugal há um ditado que diz que candeia que vai à frente ilumina duas vezes. Há frente já não vamos, mas a capa de António Guterres na Time pode ser uma boa motivação e o documentário da HBO Portugal – que pergunta: se podemos salvar o planeta permitindo a nossa vida nele, e temos os meios, porque não o fazemos? – um empurrão na nossa vontade de agir. Tendo o assunto entrado nas agendas há muitos anos, a preocupação crescente de que nos apercebemos, sobretudo, com o recente crescimento dos partidos verdes pela Europa fora vai-se tornando naturalmente uma base de atuação para todos, e, sobretudo, para o target desta revista, líderes em todas as áreas.

A capa e o artigo da Time com António Guterres, que fala de um planeta que se está a afundar, devido à subida do nível das águas, é um alerta impressionante. Em Portugal tem o impacto acrescido de tocar na cabeça e no coração, podendo ser uma wake-up call relevante. Das aldeias submersas das Fiji, da necessidade de construir novas para realojar os habitantes, à permeabilidade do solo de Miami que pode ter consequências semelhantes e às tempestades cada vez maiores e cada vez piores que acontecem em Nova Orleães e Houston, a leitura do artigo é todo um exercício de consciencialização. Como ele próprio diz, é fácil pensarmos nessas ilhas como terras distantes, com desafios distantes também. Mas a tragédia delas pode rapidamente ser a nossa. A proximidade criada pelo texto fotográfico joga um papel importante na apreensão do que está em causa. Nada ali desafia a imaginação, conseguimos facilmente perceber o que está a acontecer.

Do artigo da Time para o documentário Ice on Fire, narrado pelo Leonardo DiCaprio, há um salto não no sentido da qualidade, mas no da proximidade. Da ponte fantasma na Islândia que deixou de ter um rio a passar por baixo, ao pescador que tinha como cliente quase exclusivo o McDonald’s, as ostras, a energia solar e a eólica, o mar, os incêndios que deixaram uma marca relevante em Portugal recentemente, as tempestades, os animais… tudo nos é familiar. Os efeitos económicos, as implicações no trabalho… A linguagem é acessível e o tom não é fatalista. Chamam-nos, a cada um de nós, ajudantes do planeta. Ao contrário da adolescente sueca, o documentário não quer que “entremos em pânico” – “…I don’t want you to be hopeful. I want you to panic…” –, fornece uma lista de problemas e de soluções e seduz-nos a ter um papel na sobrevivência da nossa espécie no fundo. Ajudarmos a tornar a nossa vida possível na Terra. Está tão bem feito que, quando acaba, sabemos que temos de mudar o nosso comportamento.

Por: Sandra Clemente, jurista

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