Como é que as mulheres olham para o sucesso?

Uma pesquisa desenvolvida pela Netsonda para a marca Evax, que envolveu 250 mulheres portuguesas, apurou que as mulheres de hoje se consideram na sua maioria diferentes e autênticas. Mais de 80% das inquiridas revelam efetivamente ter a sua própria definição de sucesso e 76% defendem que o êxito é algo mais do que material, contrariando as noções commumente aceites pela sociedade.

Na verdade, as jovens mulheres portuguesas de hoje têm o mundo disponível no ecrã dos seus smartphones. As redes sociais em que navegam alimentam sonhos e ao mesmo tempo mostram diversos modelos femininos que poderão encaixar em muitas noções de sucesso. Mulheres, jovens, de todo o mundo, bem-sucedidas, que inspiram e ao mesmo tempo também podem pressionar.

Esta montra global de sucesso tende a contribuir para jovens adultas mais ambiciosas e também exigentes. Neste estudo, a maioria das participantes define sucesso como resultado da combinação de muitos fatores: 41% indicam entre nove a 12 traços diferentes e 22% podem até ser encaradas como idealistas, no sentido em que têm mais de 13 critérios a serem alcançados para se considerarem bem-sucedidas.

Por um lado, é incrível confirmar-se como as jovens portuguesas de hoje estão a apropriar-se das suas vidas e a criar as suas próprias noções de sucesso, de forma única e individual. Por outro lado, existirá um nível ótimo de exigência, que, se ultrapassado, tenderá a gerar insatisfação crónica e a contaminar os níveis de saúde global. E essa exigência está bem pautada nos resultados encontrados: a maioria das participantes (64%) não se considera muito bem-sucedida, apesar de numa escala de 0 a 10 para avaliar o seu nível de sucesso, a média ter sido de 6,6, ou seja, apesar de reconhecerem que já conquistaram alguns/muitos objetivos continuam insatisfeitas. Esta inquietação poderá constituir uma alavanca motivacional importante para uma verdadeira satisfação e felicidade – são mulheres que não se deixam intimidar e que acreditam merecer serem felizes e saudáveis. Contudo, nota-se uma tendência para que aquilo que ainda não foi alcançado pese mais do que aquilo que já se tem, o que suscita algumas preocupações.

A geração dos 20 aos 35 anos em que este estudo se focou é uma geração de mulheres que está a viver entre paradigmas paradoxais, o que é um enorme desafio – o que se reflete nos resultados apurados. As inquiridas referem como principais frustrações a falta de estabilidade financeira e não terem um trabalho prestigiante ou de sucesso; ao mesmo tempo, valorizam em primeiro lugar a família e amigos, em que se destaca a importância dada ao equilíbrio entre vida pessoal e profissional, e em segundo lugar a saúde. Ora, aqui refletem-se bem os paradoxos atuais que podem constituir armadilhas: num início de carreira, criar-se o seu próprio emprego ou conquistar-se um trabalho apaixonante dificilmente será acompanhado de imediato com estabilidade financeira e muito tempo livre.

Para cumprirem com o seu potencial e usarem a liberdade que têm da melhor forma possível, importa que estas jovens mulheres aprendam a definir bem os seus objetivos, para não correrem o risco de perseguir oásis ilusórios de perfeição.

Viver entre dois mundos, entre as regras herdadas de uma sociedade capitalista e industrial e a mentalidade contemporânea de “slow living” e “be mindful” (em que as relações de qualidade e a saúde integrada ganha relevo), pode gerar conflitos internos, originando ambições incompatíveis entre si, de certa forma. Viver para ter muito é bastante diferente de viver para ser, em que o verdadeiro sucesso na vida vem de dentro.

Quando muitas das mulheres inquiridas neste estudo dizem que gostariam de desenvolver mais áreas como a autoconfiança, a realização profissional, o conhecimento acerca do seu potencial, a capacidade de definir objetivos, competências de motivação e equilíbrio entre vida pessoal e profissional, isso denota precisamente a consciência de que necessitam de mais recursos a nível pessoal, que lhes dê a flexibilidade necessária para se ajustarem aos paradoxos e exigências de hoje. Recursos que não são disponibilizados nas universidades porque não incidem em hard skills. Esta é, assim, uma geração feminina mais atenta à sua saúde psicológica, qualidade de vida e bem-estar, com a noção de que os diplomas são apenas um ponto de partida, e que serão muito mais as suas competências pessoais que determinarão o seu grau de sucesso e felicidade.

Por: Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica, coach e formadora

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