Cinco notas sobre poder e influência num mundo louco por “likes”

  1. A melhor definição de poder é portuguesa e lapalissiana: “Quem pode pode”. Poder é, em sentido estrito, a minha capacidade de levar os outros a fazerem o que quero que elas façam. Por definição, não tenho poder sobre elas se não as influenciar. Todavia, posso exercer influência sobre outras pessoas sem disso ter consciência – ou sem que a minha intenção seja exercer poder sobre elas. Daqui decorre que a minha influência pode ser exercida intencionalmente – ou involuntariamente. Posso ser influente sem querer sê-lo.
  2. “Poder” é palavra tabu. Poucas pessoas assumem que querem “ter poder”. Rosabeth Moss Kanter, prestigiada professora na Harvard Business School, escreveu há quatro décadas: “É mais fácil falar de dinheiro – e muito mais fácil falar de sexo – do que falar de poder. As pessoas que o têm negam tê-lo; quem quer tê-lo não quer parecer que anseia por ele; e quem se empenha nas suas maquinações fá-lo secretamente”. O poder e a influência são, todavia, inerentes à vida social (na família, nas organizações, na vida política, na cena internacional).
  3. O poder, per se, não é bom nem mau. A forma como é exercido ou os fins prosseguidos é que podem ser virtuosos ou perversos. Para se mudar o mundo para melhor é preciso ter poder – não necessariamente o poder autoritário ou hierárquico, mas tão-só o poder trazido pela capacidade de influência. A expressão “o poder corrompe” é, pois, limitada. O que corrompe é o modo como é exercido e as finalidades prosseguidas – embora o poder exercido durante longo tempo, sem freios e contrapesos, tenda a redundar em soberba e corrupção, mesmo quando os objetivos iniciais são virtuosos.
  4. As redes sociais potenciam as virtudes e os vícios do poder. A virtuosa capacidade de influência pode alcançar uma audiência numerosa, em escassos minutos ou horas. Mas os perigos, mesmo que involuntários, também são exponenciados – sobretudo quando se confunde a valia dos argumentos e a verdade dos factos com a quantidade de seguidores e de likes. Ser influenciador pode trazer poder, status e dinheiro – o que aumenta a capacidade de exercer influência, num ciclo que pode ser virtuoso ou perverso.
  5. O grande poder perverso das redes sociais emerge do cruzamento de três fatores. Primeiro: qualquer pessoa pode apresentar a sua “verdade”, manipular imagens, sons – e espalhar a notícia mais bárbara ou suja. Segundo: se os argumentos forem persuasivos e confirmarem o que a audiência quer “saber”, os arautos fazem o seu papel e a capacidade de influência cresce. E quanto mais cresce, maior o potencial para continuar a crescer. Terceiro: quando a audiência é confrontada com os verdadeiros factos, é muito provável que se prenda aos “factos alternativos” antes apresentados e recuse os verdadeiros factos. Para reduzirem a dissonância cognitiva entre aquilo em que acreditam e a realidade, os humanos optam frequentemente por negar a realidade.

 

Por: Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School

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