Chefes, filhos e primos

Em toda a discussão sobre a endogamia governamental, ouvi algumas vozes (que não hão-de chegar ao céu) a comentar que as nossas empresas privadas estavam cheias de filhos e primos dos chefes. Uma questão nada tem a ver com a outra, mesmo que dermos de barato que aquela asserção é verdadeira. E o primeiro ponto por que nada têm a ver é muito simples de explicar: o Estado é de todos os cidadãos, dos contribuintes, dos eleitores; uma empresa privada diz respeito aos seus donos, sejam eles poucos ou inúmeros, como aquelas que têm o capital disperso na Bolsa.

No Governo, além da tendência para estar sempre a constituir ministérios diferentes dos anteriores (que é um bom negócio para os fornecedores de estacionário), existe a ideia perversa de que cada ministro precisa de ter à sua volta inúmeros yes-men (ou women) que, obviamente, são recrutados nos círculos de amizade, no partido ou, como se tem visto, na família. Nada disto acontece nas empresas. Estas, normalmente, só mudam de nome se lhes acontecer alguma desgraça (tipo BES/Novo Banco). Basta olhar para a SONAE que significa, por acaso, Sociedade Nacional de Estratificados, no tempo em que Pinto de Magalhães a fundou e se dedicava a processar madeiras, que manteve o nome mesmo quando se reconverteu na holding de um enorme conjunto de empresas, das quais sobressaem o retalho e a marca Continente.

Curiosamente, na SONAE, depois de anos em que o já falecido Belmiro Azevedo foi o número um e a alma da internacionalização e crescimento do grupo, que é hoje uma multinacional, o seu filho Paulo Azevedo, juntamento com Ângelo Paupério (que não é da família), assumiram a liderança executiva, que passa para Cláudia Azevedo, irmã de Paulo. Há algum nepotismo, semelhante ao que se passa na política? Não. Qualquer dos Azevedos, caso não ajam com competência, sentirão bem na pele a crítica de muitos outros membros do Conselho de Administração bem como de diretores de primeira linha e diversos stakeholders, coisa que jamais acontecerá num governo.

No caso do homem mais rico do país, o também recentemente falecido Américo Amorim, sucedeu-lhe a sua filha Paula. E, embora na área das cortiças seja um familiar (António Rios de Amorim) a estar à frente do negócio, no importantíssimo setor energético, a GALP, embora seja Paula Amorim a chairwoman, o executivo é Carlos Gomes da Silva que fez carreira dentro da empresa nos últimos 20 anos. Ou seja, a acionista principal foi buscar alguém com conhecimento dentro da casa… Algo que, isso sim, é raro vermos no Estado.

Acresce que há empresas, como os CTT, em que o capital é tão disperso que não se pode dizer que alguém consegue nomear o CEO. Francisco Lacerda está naquele lugar pela sua carreira de gestor. Outras, como a EDP, têm capital significativo de países como a China, sendo que António Mexia nasceu em Lisboa e não tem uma gota de sangue chinês. Como Miguel Maya do BCP não é da família de nenhum dos seus acionistas e Rodrigo Costa, CEO da REN, tem a chinesa CTG (China Three Gorges) como principal acionista.

Há, ainda, as empresas mais pequenas. Aquelas cujo nome da família é importante para a credibilidade do negócio. O Grupo Pinto Basto, com mais de dois séculos, continua a ter entre os seus administradores membros da família; o mesmo se passa com inúmeros negócios maiores e mais pequenos em que a história se confunde com a família. Mas nada disto pode ser comparado ao Estado e às empresas do Estado. Muito menos à endogamia e complexas relações de parentesco e de amizades nas mais altas esferas da administração e do Governo, onde em risco está o dinheiro de todos e onde a competência e currículos parecem não ser avaliados por ninguém.

É por isso que me faz muita confusão ver tanta gente na política que nem uma hora passou numa empresa privada, daquelas que fazem crescer o país, criam empregos, exportam, para perceber os limites e a decência que são necessários à boa gestão, bem como os riscos inerentes ao mau trato dos assuntos em que estão envolvidos. Mas não é por acaso que sempre que uma negociação entre privados e Estado prejudica o Estado, o discurso é o da ganância dos privados. Quando devia ser, pelo menos em partes iguais, o da incompetência negocial do Estado, onde há sempre chefes, primos e familiares a mais.

Por: Henrique Monteiro, jornalista e antigo diretor do Expresso

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