Bastam-nos 10% para ganhar

Quando José Silva Lopes (1932-2015), figura ímpar, era presidente do Banco e da Associação Mutualista Montepio, então longe dos problemas que mais tarde vieram a conhecer-se, teve uma ideia fantástica: dar prémios a escolas.

A ideia não parece (e não seria) nada original, caso não fosse o toque social e inovador que Silva Lopes lhe deu. Não sendo propriamente um político já havia sido Governador do Banco de Portugal, ministro das Finanças, consultor do FMI e do Banco Mundial, mas Silva Lopes mantinha uma ligação constante à realidade, à terra, às necessidades dos outros, qualidade que raramente se encontra nos dias que correm. Qual era esse toque: não premiar as melhores escolas, porque segundo ele essas já tinham muitos prémios, mas as piores. Calma! As piores que mais houvessem progredido de um ano para o outro, ou nos últimos anos.

Com esse fim constituiu um júri, para o qual convidou o Prof. David Justino (ex-ministro da Educação), a Dr.ª Isabel Alçada e o Prof. Nuno Crato (que viriam a ser ministros da Educação), o editor Guilherme Valente e eu próprio, como pessoas interessadas pelo fenómeno. O grupo, além de ser estimulante e, pesem algumas picardias, amigo, tinha na liderança de Silva Lopes uma referência comum.

Depois de David Justino, através dos dados recolhidos no Centro de Estudos da Universidade Nova de que fazia parte, elencar as escolas que progrediam, estas eram convidadas a apresentar uma candidatura com as ideias base que se propunham desenvolver com o prémio. Era, então, altura de membros do júri as visitarem para in loco verificar a credibilidade das intenções manifestadas.

Foi numa dessas visitas, que me levou a mim e ao Dr. Silva Lopes, como membros do júri, a uma determinada escola, que recebi uma inesquecível lição. Fomos recebidos no estabelecimento de ensino de forma demasiado descontraída, para não falar da desarrumação e desorganização geral. Conduziram-nos à sala de professores para nos sentarmos numa mesa repleta de fios elétricos, tomadas e outros apetrechos vários. Com um gesto, um dos responsáveis da escola atirou tudo para o chão. Sentámo-nos (salvo erro cinco, três da escola e nós os dois do júri) e fizemos as perguntas da praxe, enquanto ouvíamos queixas sobre as condições que o Ministério da Educação lhes dava, as carreiras dos professores e uma série de assuntos com que nada tínhamos diretamente a ver. Reparámos, nesse momento, que nenhum dos professores tinha uma caneta, que foi providenciada por nós.

A reunião correu mal. E à saída Silva Lopes disse-me: “Sabe, aqui ganharam os 10% maus”. Não percebi bem e ele deu-me a seguinte lição:

Numa organização, seja ela escola, empresa, banco, Governo, o que for, eu parto do princípio que há 10% de tipos, os estarolas, que puxam para trás; só sabem queixar-se e não apresentam soluções para nada. Do outro lado, haverá 10% de bons, os carolas, que apesar das dificuldades e dos inúmeros desafios que lhes são colocados, tentam superar tudo e levar as coisas a bom porto. No meio, há uma massa de 80% que acaba por ser influenciada pelos 10% mais dinâmicos. Se estes forem os carolas, tudo anda bem; se forem os outros, como me pareceu neste caso, está tudo perdido.

As informações recolhidas mais tarde deram-lhe razão. A escola mudara de Conselho Diretivo pouco tempo antes da nossa visita. Talvez por isso tenha sido uma exceção nas muitas escolas que visitámos em que o clima era o oposto: entusiasmo, apesar do reconhecimento de carências; apostas em soluções inovadoras, de acordo com o meio em que estão inseridas; professores dedicados, apesar dos salários baixos; e projetos, por vezes ingénuos, mas com defensores empenhados, entre alunos, funcionários e professores.

Da escola em concreto de que falei, só me ficou uma nota positiva: a lição que Silva Lopes me deu e nunca esqueci. É preciso, como ele dizia, estimular aqueles 10%, reconhecê-los e remunerá-los. Com pouco, dizia sempre, se pode fazer muito e obter resultados excecionais e inesperados.

Por: Henrique Monteiro, jornalista e antigo diretor do Expresso

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