As tribos do século XXI

Um estudo recente, desenvolvido pela seguradora americana Cigna, mostra que 50% dos americanos se sentem sós. Este estudo mostra, ainda, que a solidão está igualmente presente naqueles que são mais ativos nas redes sociais, o que é em si um paradoxo. Como é que em 2018, numa altura em estamos constantemente a comunicar, seja através das inúmeras aplicações de redes sociais, ou das muitas aplicações de messaging que temos nos nossos smartphones, nos sentimos tão sós?

O livro Tribe: On Homecoming and Belonging, do autor americano Sebastian Junger, mostra que a percentagem de combatentes de guerra americanos que sofrem de Stress Pós-Traumático tem aumentado desde a guerra do Vietname, e que é mais premente naqueles que estão longe da linha da frente.

O que explicam estes dois factos que à partida parecem desconectados? A resposta é “Comunidade”, ou melhor, a falta dela. Desde os primórdios da nossa existência, a nossa sobrevivência dependia de vivermos em comunidade, do espírito de entreajuda para combatermos um inimigo comum ou atingirmos um objetivo. Hoje, no ocidente, onde, felizmente, raramente temos de lutar pela nossa sobrevivência e em que, com raras exceções, lutamos por objetivos comuns, sentimos que somos apenas um pequeno nó numa grande rede interligada.

Quando é que nos sentimos menos sós? Quando estamos rodeados por pessoas com as quais partilhamos sonhos, ambições e objetivos e em que há um sentimento forte de pertença.

Hoje, quando me perguntam porque faço parte de comunidades como os Global Shapers, a Sandbox Network ou a MakeSense, a resposta nem sempre é fácil de racionalizar. A verdade é que é nestas comunidades que encontro as tais pessoas com quem partilho sonhos e ambições, e em que deixo de ser mais um pequeno nó e passo a sentir que faço parte de algo maior.

Mas as empresas têm também aqui um papel a desempenhar. As comunidades são as tribos do século XXI e as empresas mais bem-sucedidas são aquelas que melhor conseguem criar este espírito de pertença, de comunidade.

Somos constantemente bombardeados com livros, formações e palestras sobre como replicar a cultura da Google, da Amazon ou da Apple na nossa empresa. Mas raramente oferecer free food, organizar festas e beer breaks ou trabalhar em pufes ajudam efetivamente à criação de uma boa cultura (comunidade) organizacional. E é aqui que entram os líderes.

Em 2016, encontrei a melhor definição para um líder. Um líder é aquele(a) que cria o contexto certo, com uma visão clara e transparente, para que as pessoas com quem trabalha possam mostrar o melhor de si. Um líder é aquele que cria o tal espaço seguro onde cada indivíduo pode dar o melhor de si e arriscar, mesmo que isso signifique falhar.

Mais do que culturas organizacionais, o sucesso empresarial de hoje depende de líderes que conseguem criar comunidades com um propósito partilhado e que têm os seus próprios rituais e valores. Ser líder é provavelmente o trabalho mais difícil do mundo e não havendo uma fórmula mágica, nunca nos devemos esquecer de onde viemos.

Por: Inês Santos Silva, empreendedora e curadora dos Global Shapers Lisboa

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