A “teoria das elites” na liderança

A chamada “teoria das elites” tem sido alvo de leituras equivocadas, a partir da confusão entre “teoria das elites” e “elitismo”. Importa realçar como a nascente sociologia tivesse a ambição de descrever os fenómenos sociais de um ponto de vista, como Max Weber teria dito, isento de juízos de valor (wertfrei). Nesse contexto, os primeiros teóricos das elites estudavam um fenómeno que reconheciam como estruturalmente fundamental: a tendência de grupos pequenos de indivíduos de dominar, dirigir ou guiar grupos maiores. Estes autores viam que as ações coletivas eram, em todos os grupos humanos, dirigidas por minorias organizadas. A observação não era inédita: Aristóteles ou Maquiavel já tinham chegado às mesmas conclusões. Dois teóricos italianos, Vilfredo Pareto e Gaetano Mosca, reinterpretaram-nas usando o novo vocabulário da sociologia. Se todos os grupos se dividem em dois subgrupos (os “dominantes” e os “dominados”), porque é que algumas elites prevalecem e outras não? Os mecanismos que determinam o sucesso de uma elite têm de ser reconduzidos à capacidade de alcançar um equilíbrio entre o necessário renovamento e a igualmente necessária estabilidade. Uma elite que não se renove será condenada à esterilidade, à esclerose, à fraqueza. Uma elite instável não estará em condição de se afirmar.

Por muito que quisessem analisar a sociedade prescindindo de juízos de valor, o ponto de vista de Pareto e Mosca era ideologicamente conservador. O alvo polémico eram os movimentos socialistas e o sufrágio universal. Apesar da retórica democrática, no alargamento do sufrágio não viam nada mais do que a substituição de uma elite por outras.
Outros teóricos compreenderam que as grandes mudanças ocorridas com o surgimento dos novos partidos-massa impunham às elites um papel ainda mais determinante. Robert Michels reconheceu que a “lei férrea” das oligarquias podia explicar as dinâmicas internas tanto dos velhos partidos burgueses como dos novos partidos operários. Também em organizações ideologicamente igualitárias, a estrutura do grupo mostra uma fundamental divisão entre uma multidão e uma elite dirigente. Joseph Schumpeter observou que a democracia não requer que o povo desempenhe um papel politico ativo: é suficiente que as elites políticas se articulem numa pluralidade de grupos em concorrência para obter o voto popular. Karl Mannheim notou como na democracia representativa os representantes constituem uma elite dinâmica, em relação aos representados. Raymond Aron mostrou como nas democracias liberais a oligarquia não fosse opressora, unificada e centralizadora. Finalmente, Antonio Gramsci reconstruiu um modelo piramidal cujo vértice são os “intelectuais orgânicos” (à classe social à qual pertencem), que constroem e asseguram a “hegemonia” ideológica, cuja função é a extensão do consenso.

Embora desenvolvida no âmbito dos estudos políticos, a “teoria das elites” diz respeito a todos os grupos humanos. E permite de perceber melhor o fenómeno da liderança. Os teóricos das elites realçaram o carácter hierárquico das estruturas sociais. Pode-se tratar de uma hierarquia rígida ou dinâmica, mas, em ambos os casos, é deste contexto que os líderes emergem. Emergem por cooptação, quando partilham as posições das elites dominantes, ou por contraposição, quando são líderes de rutura. As elites, em outras palavras, criam os líderes: direta ou indiretamente. E os líderes podem moldar as elites. Uma vez tomado o poder, um líder terá como fundamental objetivo mantê-lo. Para que isto seja possível, terá, também, de aprender a gerir as elites.

Por: Giovanni Damele, professor de Filosofia Social e Política

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