A roda de hamster e a falácia da ilusão de movimento

Todos os dias existem tarefas básicas que necessitam da nossa atenção. Coisas operacionais do dia-a-dia que fazem a empresa funcionar. Entrar nesta “roda de hamster” é muito fácil. Sair é muito mais complicado. Um cliente liga-nos, aparece um problema com uma entrega, alguém precisa da nossa ajuda, etc.
No entanto, e apesar destas coisas terem de ser feitas e sem elas a empresa provavelmente não sobreviver, elas também são a forma mais eficiente de nos distrair das ações estratégicas e da inovação necessária para que o negócio avance e prospere.
No livro sobre a criação da Amazon, The Everything Store, escrito por Brad Stone, há uma pequena história sobre os dias iniciais da Amazon, quando a empresa ainda estava na casa do fundador, Jeff Bezos. Na cave da casa os livros eram armazenados e lá era feita a separação dos mesmos e a preparação das encomendas em caixas para envio aos clientes… no chão! Cada pessoa, incluindo o próprio Jeff Bezos, sentava-se no chão a organizar os livros para enviar aos clientes. Por incrível que pareça, não existiam mesas. Foi preciso um novo elemento da equipa, recém-contratado, que quando desceu pela primeira vez à cave perguntou porque não existiam mesas para maior conforto e eficiência.
Este é um claro exemplo de como é muito fácil focarmo-nos nas tarefas imediatas e operacionais e esquecermo-nos de pensar estrategicamente. E não é preciso alguém de fora ir à cave da empresa para observar que não existem mesas. Esta perspetiva pode e deve vir do interior da empresa e de quem nela trabalha no dia-a-dia. Até porque as empresas raramente convidam elementos externos a ver a sua “cave”.
Adicionar mesas não foi uma ideia super inovadora nem difícil. Mas naquela altura, em que Jeff Bezos e a sua equipa passavam os dias a tratar do site e dos clientes e as noites a preparar encomendas para enviar, era muito fácil descurar melhorias, mesmo as mais óbvias como mesas.
O mesmo ocorre em empresas por este mundo fora todos os dias. Enquanto CEO ou líder de equipa, é muito fácil ser puxado para a urgência atual, o problema que acabou de ocorrer ou ajudar a avançar o projeto em mãos. E é muito fácil continuar a fazer estas coisas umas atrás de outras, caindo na falácia da “ilusão de movimento”, aquele sentimento de que estamos a ser produtivos só porque estamos a fazer algo, sem pensar no quão importante ou eficiente é aquilo que estamos a fazer.
Ao estarmos nesta “roda de hamster” constante é fácil esquecer de olhar para o futuro e de pensar em formas de levar a empresa para o próximo nível, de como melhorar as operações ou as vendas nos próximos anos.
“Mas eu não posso deixar de atender chamadas e responder a emails”. É verdade que quando uma empresa está operacional existe uma multitude de tarefas que precisam de ser feitas regularmente, e independentemente de quão básicas e de pouco valor acrescentado sejam, são necessárias para que o negócio continue a existir. A solução não pode ser deixar de fazer estas coisas, mas sim encontrar formas de as incorporar, de forma a que não consumam todo o tempo disponível, e garantir que existem blocos de tempo destinados para olhar para a frente e pensar estrategicamente sobre o futuro.

 

Por: João Ramos, cofundador da Koalarest.com

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