A revolução da Humanização

Por: Catarina Barosa, diretora editorial

Depois de décadas a acreditarmos na especialização, eis-nos agora chegados ao mundo da generalização, da complexidade, da globalidade. Até onde a nossa memória histórica consegue chegar, podemos identificar várias revoluções que nos transformaram: a revolução do conhecimento – que nos permitiu escalar a cadeia alimentar e passarmos a ser o predador por excelência, e tudo graças à nossa capacidade de pensar, ficcionar, antecipar, imaginar o futuro; a revolução agrícola – que nos sedentarizou, nos engordou e nos deu tempo livre para pensar; a revolução industrial – que nos sedentarizou ainda mais, continuou a engordar, substituiu pelas máquinas nalgumas tarefas braçais, deixou-nos ainda mais tempo livre, em cima do tempo livre que já tínhamos, para continuar a pensar; a revolução tecnológica – acelerou essa substituição, continuou a engordar-nos ainda mais, apresentou-nos um admirável mundo novo, e começou a ajudar-nos nas tarefas do pensamento;  a revolução digital – engorda-nos, substitui-nos nas tarefas braçais e começa também a substituir-nos nas tarefas do pensamento. Mas atenção, se nós somos únicos, insubstituíveis, um milagre da natureza ou uma criação divina, não podemos, assim, sem mais, ser descartados, arrisco dizer que a próxima revolução será a da humanização – aquela em que as nossas criações tentam, em vão, substitui-nos na tarefa de sermos inexplicáveis e nos obrigam a fazer a constante apologia do eu real, do Homem dotado de uma razão emocional, de uma razão que se comove.
Numa entrevista dada por Edgar Morin, em 2014, o sociólogo e filósofo francês, esclarece que noção de identidade se define de uma forma dupla. Um eu singular e insubstituível e um eu comunitário, composto por uma família, pátria ou comunidade. Para compreender a multiplicidade da identidade, Morin defende a necessidade do pensamento complexo. Para este pensamento complexo, é importante a intervenção de todas as áreas do conhecimento incluindo aquelas do domínio do inexplicável.
Rubem Alves, escritor brasileiro, propôs que o nosso sistema de ensino formasse professores de espanto, em vez de estar a formar alunos como fazia nos tempos da revolução industrial. O que as máquinas fazem os homens não precisam de saber fazer, precisam, ao invés, de se formar nas tarefas humanificantes, que as máquinas nunca substituirão. Nunca uma máquina se espantará.
Mais recentemente, Mark Cuban, um dos investidores do Shark Tank, referiu que estudar Filosofia será mais proveitoso do que estudar Ciências da Computação, ele arriscar mesmo uma previsão, dizendo que em dez anos, a licenciatura em Filosofia vale mais do que uma formação num qualquer curso de programação informática tradicional.
Três visionários que antecipam o futuro, três defensores do pensamento insubstituível, no fundo, três defensores da Humanidade.
Uma liderança humanizada será um desafio para os nossos líderes. Uma maneira diferente de olhar para o mundo da tecnologia e dos homens, investindo tanto nestes como naquela, ou talvez mais nestes, na medida em que no futuro podemos ter de enfrentar uma batalha desigual. Barack Obama, na excelente entrevista que deu na Netflix a David Letterman, mostrou com os seus exemplos de vida, enquanto filho, pai, marido e Presidente dos Estados Unidos da América, e agora como Presidente da Fundação Obama, que liderar é ser humano, é conseguir ter o coração fora do corpo, fora da circunscrição territorial de um eu egoísta, fora da máquina.

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