A queda de um herói

No Japão, país pouco atreito a venerar o que vem de fora, Carlos Ghosn foi idolatrado como salvador da Nissan. Foi o grande mentor da aliança Renault-Nissan-Mitsubishi, que liderou. Com presença frequente no Fórum Económico Mundial de Davos, o super-herói teve mesmo direito a banda-desenhada, a manga japonesa, uma honraria escassa no Japão. Os empregados procuravam-no para lhe pedir autógrafos. Os paparazzi perseguiam-no. Foi agraciado pelo imperador do Japão pelo caráter extraordinário das suas contribuições. O Líbano, país de origem da família e onde Ghosn despendeu anos de infância, estampou a sua face num selo de correio.

Ghosn foi, segundo muitos especialistas e observadores, um brilhante gestor. O seu mérito é indiscutível. Mas o poder ter-lhe-á subido à cabeça. E, sem uma estrutura de pesos e contrapesos na organização que liderava, começou a comportar-se com soberba. O super-herói, que conquistara a alcunha de cost killer, tornou-se conhecido pela sua propensão para gastos faustosos. Em 2017, pagou o equivalente a 775 mil euros a um seu amigo libanês para criar uma estátua (“Rodas da Inovação”) que viria a ser colocada à entrada da sede da empresa, em Yokohama. Em 2016, alugou o Palácio de Versalhes para celebrar faustosamente o seu segundo casamento, no dia do 50.º aniversário da sua noiva. A festa foi inspirada em Maria Antonieta, o filme de Sofia Coppola. A Renault veio a revelar que o ex-presidente da empresa pode ter usado indevidamente um acordo de patrocínio para organizar o evento.

A remuneração de Ghosn também foi tema de grande controvérsia. Emanuel Macron, quando em 2016 era ministro das Finanças de França, pressionou a Renault para reduzir o montante – o qual, em 2017, correspondia a quase onze vezes a compensação do chairman da Toyota. Para Ghosn, este montante não era suficiente. Lamentava-se de que a sua compensação era inferior (e, de facto, era) à dos líderes de outros fabricantes globais. Este autocentramento foi tomado como descaramento no Japão. Mesmo em França, a reação foi adversa. Pierre-Henri Leroy, líder da Proxinvest, um grupo consultivo, afirmou: “Achamos que alguém que aufere 240 vezes mais do que o salário mais baixo dos empregados está fora de controlo”.

Ghosn caiu do pedestal em finais de 2018 sob acusações de fraude fiscal e uso indevido de recursos da empresa para fruição pessoal e da família. Foi detido pelas autoridades japonesas quando regressou a Tóquio num avião privado que ele já via como seu. O seu estilo autocrático, o culto da personalidade e os gastos sumptuosos a que se acostumara começaram então a ser reprovados na praça pública. Hiroto Saikawa, outrora protegido de Ghosn, afirmou que o comportamento do seu antigo mentor era intolerável. Afirmou, também, que mesmo que o alegado crime fiscal não fosse provado, Ghosn deveria ser afastado. Condenou o longo período de permanência de Ghosn no poder e expressou sentimentos de desânimo, frustração e indignação pela conduta do outrora ídolo. A Comissão que analisou a governança da Nissan também apontou falhas graves na conduta de Ghosn.

É provável que o outrora herói tenha deixado de ter os pés na terra e desenvolvido a húbris – a doença do poder. Ter-se-á sentido infalível e insubstituível. E, quando chegou o momento, os seus opositores “mataram César”, a expressão usada por um analista japonês para descrever a explosão da “bomba”. A reportagem que o New York Times publicou no último dia de 2018, pouco tempo após a queda da estrela, alegava: “O que não faz sentido para os amigos e a família de Ghosn é que um homem com um talento sobrenatural para ver todos os ângulos – fosse a mexer-se na burocracia japonesa, a gerir ministros franceses ou a desenhar um utilitário desportivo de dimensão média – não tivesse percebido o que aí vinha. Talvez, teorizaram, fosse o jet leg e os cem dias anuais que passava num avião”. A teoria ajuda a reconfortar a família e os amigos. Mas a queda do ídolo poderá bem ter tido outra origem: voou demasiado alto e, tal como Ícaro, aproximou-se excessivamente do sol. Foi então que as asas lhe derreteram. Os sinais czaristas de Ghosn haviam emergido antes da queda. Desenvolveu a húbris. Foi porventura vítima da sua própria soberba.

Pelo menos três lições podem ser extraídas, úteis não apenas para líderes bem-sucedidos, mas também para todos nós. Primeira: convém abandonar a cadeira de poder atempadamente, antes de se ser corrompido pelo lugar. Segunda lição: a sensatez recomenda que as organizações estabeleçam checks and balances, para que o poder dos seus líderes seja alvo de escrutínio permanente. Convém que os líderes sintam conforto com esse desconforto. A terceira lição está contemplada na expressão latina memento mori: “lembra-te que és mortal”.

Por: Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School

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