A liderança inata de João Vasconcelos

João Vasconcelos começou muito cedo a trabalhar como líder. Aos 18 anos teve a sua primeira experiência profissional, como o próprio nos referiu: “A minha primeira participação em empresas foi num parque aquático em Vieira de Leiria. Era um negócio do meu pai, tínhamos vários restaurantes, vários cafés, várias centenas de camas e tínhamos um parque com piscinas, a maior piscina do país, ainda hoje, é a maior piscina do país”. Terá sido com esta primeira experiência que tomou consciência da importância e responsabilidade de gerir “milhares de pessoas por dia, milhares de clientes, centenas de funcionários, portanto aprendi muito, aprendi muito de equipas, pessoas, fornecedores, erros que se cometeram”. Foi uma enorme aprendizagem para a vida. Mas as coisas não ficaram por aqui, tinha muitas outras atividades.

O João começa muito cedo a sua atividade empresarial, mas sobrava ainda tempo para o associativismo?

João Vasconcelos (JV): Sim, aos 18 anos liguei-me à ANJE – Associação Nacional de Jovens Empresários e fui dinamizar o núcleo de Leiria; mais tarde, acabei no núcleo da Região Centro e vice-presidente da ANJE nacional. Era uma grande associação, tínhamos dezenas de incubadoras, isto há 20 anos. Coordenávamos os principais programas de apoio aos jovens empreendedores. Já na altura tínhamos um programa de apoio a jovens mulheres empreendedoras e foi aí que conheci a minha mulher. Ela foi tirar esse curso e é hoje uma grande empresária, uma grande líder empresarial. Depois também tive outros negócios de consultoria, de comunicação, design, tecnologia, imobiliário, energia, muitas áreas mesmo.

Sempre a ocupar cargos de liderança?

JV: Daí em diante sempre fui sócio. Numas empresas estava mais na gestão e noutras menos, mas fui sempre sócio. Estive também como fundador e diretor executivo da StartUp Lisboa.

Como foi essa experiência na Startup Lisboa?

JV: Foi fabulosa, foi das experiências com que mais aprendi na vida, lidei com milhares de jovens portugueses, de todas as nacionalidades, de todos os continentes, aprendi muito. Foi provavelmente das épocas da minha vida em que aprendi mais. Foi um momento muito mau para Portugal, estava no pico da crise, as empresas estavam a fechar todos os dias, desemprego, muitos amigos meus a emigrarem, a falirem, a fecharem as portas e eu estava num local onde recebia pessoas que estavam a contratar, pessoas que estavam a angariar terrenos, pessoas que estavam a acreditar no futuro. Vivi num Portugal diferente, permitiu-me não ser pessimista como o resto do país, porque me permitiu perceber que quando toda a gente estava desacreditada no futuro do país, eu tinha os indicadores pelo contrário.

Que indicadores eram esses?

JV: Eu tinha indicadores de que Portugal era muito bom para algumas coisas, tinha indicadores de que Lisboa era ótima para algumas coisas. No momento, estavam a fechar cafés, lojas, tudo, ali na Rua da Prata, onde nós estávamos; às 07 horas da tarde éramos o único prédio com as luzes acesas. Era um ambiente muito cinzento, muito pesado, ao mesmo tempo estávamos a receber todos os estrangeiros que nos diziam vocês têm a melhor cidade da Europa para montar um negócio, é o melhor sítio para se viver, isto é o melhor sítio para ter uma equipa. Ao início achávamos ridículo, mas depois percebemos que eram muitos estrangeiros a dizer isso. Com a nossa tendência lusitana de dizer mal, demorou ainda um ano ou dois a acreditar que realmente somos mesmo bons em algumas coisas.

Mas logo a seguir surge outra grande iniciativa empresarial?

JV: Sim, depois veio a Web Summit e surgiu a oportunidade de assumir as funções de Secretário de Estado com António Costa como primeiro-ministro. Com a StartUp Portugal, a rede nacional de incubadoras, com o programa SEMENTE, e com os programas de Business Angels, consegui fazer mais algumas coisas, como, por exemplo, a indústria 4.0 que me dá muito orgulho – a digitalização da economia. Eu acho que um dos maiores desafios para o país é a modernização, a atualização tecnológica da nossa indústria, que é essencial para garantir que exista nas próximas décadas. Num país que está demasiado entusiasmado com as vantagens dos serviços e do turismo (essenciais durante a crise), não podemos esquecer o valor da indústria, que é o setor que consome mais ciência e conhecimento, que garante melhores e mais estáveis carreiras profissionais e que mais exporta produtos sofisticados. Por vezes, esquecemo-nos disso.
Eu tive muito orgulho em lançar aquela que foi provavelmente uma das estratégias mais modernizadoras da indústria portuguesa nos últimos anos, que é a indústria 4.0.

Como vê a tecnologia e a liderança no futuro?

JV: Todas as grandes indústrias têm em comum o facto de, no início, terem tido um grande empreendedor, um grande líder ou uma grande líder, tecnologia e inovação. Por vezes esquecemo-nos, mas a Vista Alegre, que tem 250 anos, nasceu de uma patente da matéria-prima da porcelana de loiça. A Vista Alegre nasceu de um desenvolvimento tecnológico, da patente da matéria-prima que permitia aquela resistência, aquelas características técnicas para fazer a loiça, e ainda hoje existe.

Quais são então os segredos para as grandes indústrias conseguirem vingar?

JV: As melhores indústrias do mundo têm todas, na sua origem, grandes avanços tecnológicos. São as grandes indústrias que marcam, que ajudam a evoluir um país, mudam uma sociedade, que têm grande e permanente evolução, como, por exemplo: a dos automóveis, do hardware, farmacêutica, são essas as grandes indústrias que sustentam os PIB da Europa e os PIB dos EUA. Essas grandes indústrias vivem da inovação permanente, da inovação com impacto económico. É importante referir que uma coisa é ciência e desenvolvimento do conhecimento, isso pode não ter nada que ver com inovação. Para haver inovação tem de haver um produto, um serviço ou um processo novo, tem de haver criação de riqueza, se isso não existir não estamos a falar de inovação, mas de ciência ou de uma invenção. E eu vejo muito a invenção apelidada de inovação, e isso é um perigo. Estamos a embarcar muitas vezes numa embriaguez geral sobre a inovação e perdemos a noção de que inovação tem de ter impacto económico, tem de criar emprego, de gerar riqueza.

O que pensa sobre a liderança feminina em Portugal?

JV: Fico muito desconfortável com a quantidade de mulheres que há na liderança e no mundo empresarial. É um escândalo, no século XXI, o número irrisório de mulheres, e isso tem várias razões, e as principais estão nos homens, não estão nelas.
Eu tenho descoberto centenas de coisas nos nossos hábitos do dia-a-dia, de que nem nos apercebemos e que são ofensivas, estigmatizantes e que afastam uma mulher de ser líder. Porque a mulher tem de ter um equilíbrio muito grande para conseguir conduzir a realidade profissional e a pessoal. Acho que a liderança feminina é uma liderança diferente – as organizações lideradas por mulheres não têm nada a ver com as lideradas por homens.

Entrevista extraída do livro “How Fast Can We Go”, de Anabela Chastre

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