A liderança de excelência

Não é invulgar encontrarmos um paradoxo de perplexidade nas organizações: quem se encontra no topo das organizações não investe o tempo suficiente para se ocupar na identificação do processo ideal para que todos aqueles que na organização têm de assegurar liderança de equipas tenham uma liderança de excelência. Em suma, os líderes de topo não investem a disponibilidade suficiente para, pelo menos, criar ou, no limite, propor a criação de um processo que após a sua implementação coloque a organização no caminho da liderança de excelência.

A liderança de excelência, estruturadora de relações eficazes, implica principalmente o foco nos seguintes objetivos: i) realizar resultados; ii) realizar propósitos e iii) realizar pessoas!

Por outro lado, encontramos, comummente, organizações que realizam resultados e, de algum modo, realizam os seus propósitos, mas não almejam atingir o desiderato de realizar as suas pessoas. Muitas vezes, durante algum tempo, até conseguem deixar realizados os seus clientes externos, mas não os seus clientes internos. Contudo, essa realização tende a ser efémera e poderá mesmo trazer consequências negativas para a imagem da organização.

Creio que as bases da liderança de excelência implicam principalmente prosseguir as seguintes metas:

      1. Identificar de modo preciso a gestão estratégica da empresa;
      2. Criar um critério de decisão assente no melhor interesse da empresa;
      3. Estabelecer as competências core que estruturam a liderança de excelência;
      4. Identificar de modo preciso os comportamentos que sendo exigidos aos líderes aumentam a probabilidade de cumprir a gestão estratégica, bem como os fundamentos da liderança de excelência;
      5. Identificar um conjunto de seminários, formações, workshops e acompanhamento por coach, no sentido de todos os líderes da organização participarem em treinos para que desenvolvam de modo estruturado as competências consideradas core para a construção de uma cultura de liderança de excelência;
      6. Identificar e estabelecer um estilo comunicacional que será oficial na organização e que regerá e estruturará as relações entre qualquer pessoa que pertença à organização, ou que não pertencendo, interaja com a organização (estilo comunicacional assertivo gentil);
      7. Criar um sistema específico para avaliar as competências de liderança de excelência, estando sujeitos a este sistema e avaliação todos os que têm de liderar equipas, critério que deverá valer 50% da avaliação total dos líderes;
      8. Criar um sistema de acompanhamento – liderança de proximidade – com entrevistas de feedback e feedforward para que os líderes possam consciencializar o que estão a fazer e corrigir o seu desempenho de liderança, aumentado a probabilidade de atingir a excelência e ainda otimizarem o resultado da sua avaliação.

A criação de uma cultura de liderança de excelência implicará a identificação e divulgação precisa da visão, missão, valores, objetivos e sistema de avaliação interno e externo. As dimensões referidas compõem a gestão estratégica, a qual deve ser conhecida e dominada por todos os níveis hierárquicos, uma vez que o grande objetivo geral é que os comportamentos de qualquer pessoa da organização potenciem o cumprimento da mesma. Dito de outro modo, qualquer comportamento tido no ambiente organizacional tem o dever de: permitir atingir os objetivos da organização, respeitar os seus valores, contribuir direta ou indiretamente para o cumprimento da missão e aumentar a probabilidade de atingir a respetiva visão.

Se todos os colaboradores devem assegurar comportamentos funcionais potenciadores da concretização dos vários pilares da gestão estratégica, então os líderes da organização têm responsabilidade redobrada na assunção de comportamentos funcionais. Comportamentos de liderança excelente!

No sentido de facilitar o cumprimento da gestão estratégica, os órgãos decisores superiores deverão instituir o melhor interesse da empresa como critério de razoabilidade decisória, permitindo ultrapassar situações de dúvida acerca da melhor decisão comportamental a tomar. A ideia é diminuir ao máximo a existência de comportamentos disfuncionais por parte dos líderes, potenciadores de conflitos negativos. Muitas vezes, estes conflitos, compostos por energia excessivamente egocêntrica, exigem investimento adicional de tempo e outros recursos para os resolver.

As organizações que pretendem, em geral, construir uma cultura de excelência e, em particular, uma cultura de liderança de excelência, devem adotar um modelo de competências core do líder de excelência. Esse modelo será extensível aos membros de todas as equipas, sem distinção, permitindo construir relações interpessoais eficazes com o cliente externo e com o cliente interno.

Uma vez que adotar modelos é relativamente fácil e não cumpri-los é ainda mais fácil, deverão também ser lançadas as bases de uma cultura de aprendizagem permanente (organização aprendente), cujo veículo facilitador assenta no princípio da melhoria contínua. Este princípio desafia todos a desenvolverem as competências core de liderança, para cumprir a “missão interna” da empresa, ou seja, a construção da excelência através de comportamentos técnicos, éticos e emocionais, com a evidência clara de pressupostos de correção. Estes pressupostos permitem identificar imperativos influenciadores e identificadores da melhor ação a ter em qualquer relação. Na sequência daquela cultura de aprendizagem, todos deverão participar em formações, seminários, workshops ou ter acompanhamento de coaching, para que adquiram e amadureçam as competências de excelência.

Creio que uma cultura de excelência terá na sua base uma subcultura de autorresponsabilidade que, por sua vez, será estruturada nos desafios comportamentais lançados por todos os líderes da organização. Assim, será da responsabilidade de todos desenvolver as competências da liderança de excelência para que, em última análise, as relações (clientes internos vs. clientes externos ou clientes internos vs. clientes internos) sejam efetivamente eficazes, facilitando deste modo a construção da esperada excelência.

Por fim, os órgãos decisores de topo criarão as condições para uma cultura suficientemente aberta para que se efetive uma subcultura de feedback, mas principalmente de feedforward. Nesta subcultura será decisivo utilizar o estilo comunicacional oficial que estruturará todas as relações internas e externas (relações entre pares, entre líderes e liderados e entre todos e os demais stakeholders da organização). Esse estilo é o estilo comunicacional assente nas melhores características da assertividade, pois ser excelente em todas as competências de nada servirá se não tiverem, na sua base, princípios de comunicação clara, direta e coesa. Melhor será que essa assertividade seja gentil.

Identificar um caminho para os líderes organizacionais, uma pauta delimitadora dos seus comportamentos que deverão, acima de tudo, potenciar o crescimento dos liderados e sustentar a criação de relações funcionais e, por isso, eficazes, deve constar da agenda dos líderes de topo.

Buscar a excelência comportamental dos líderes constituirá um fator crítico do sucesso das organizações, podendo inclusive impactar o seu efetivo crescimento em valor de mercado, tendo na sua base equipas realizadas, com maior índice de satisfação no trabalho e elevado grau de comprometimento.

No mais profundo da sua essência, a liderança exige comportamentos éticos que assentam no máximo respeito e correção pelo outro. Esse respeito e correção têm como base uma exímia capacidade de comunicar diretamente, a qual permite avaliar eficazmente os comportamentos dos liderados. O foco desta avaliação deverá relacionar-se com a estratégia organizacional e níveis de competência exigidos, evitando as habituais avaliações estéreis sobre o que o “líder avaliador” acha de cada pessoa.

Se apenas alguns conseguem ser líderes, desses alguns serão muito poucos os que conseguem ser líderes excelentes. Para que aumente o número de líderes excelentes, urge que os líderes de topo assumam a responsabilidade de definir e indicar o caminho da liderança de excelência.

Concluindo, o caminho da liderança excelente permitirá, à partida, o crescimento de todos em competência e comportamento funcional, criando as condições necessárias à valorização da organização.

Por: António Paulo Teixeira, consultor de RGPD, Liderança e Gestão de Pessoas

Artigos Relacionados: