A decisão: uma perspetiva filosófica

“O princípio da ação é a decisão”
Ética a Nicómaco, Aristóteles

A decisão é o grande motor da ação, por isso é importante percebermos o modo como agimos. Segundo nos diz Aristóteles, logo nos primeiros parágrafos da Ética a Nicómaco, há três operações da alma que determinam o modo como agimos: a perceção sensorial, ou a sensação, que aliás, temos em comum com os restantes animais; o poder de compreensão e a intenção. A perceção não é origem de nenhuma ação, o poder de compreensão, ou o pensamento puro, permite-nos afirmar ou negar alguma coisa, do mesmo modo que na intenção nos faz perseguir ou fugir de alguma coisa, por isso, o referido filósofo conclui: “Assim, uma vez que a excelência do carácter é uma disposição que decide e a decisão é uma intenção deliberada, segue-se que, no caso de se tratar de uma decisão séria, o princípio da decisão terá de ser verdadeiro e a intenção correta”.
A excelência do carácter é uma disposição que decide (a ignição da ação), é uma excelência ética e prática. O que se espera de um líder é que decida, que ponha em evidência uma excelência de carácter. Dar corpo a essa disposição que decide implica um certo poder de compreensão, consubstanciado numa certa inteligência ou razão, impondo-se-lhe, nessa medida, saber identificar o que é verdadeiro e o que é falso. Além disso, deve ainda o que comanda determinar através da intenção o que é correto e incorreto para poder decidir seriamente. Isto é, baseado em princípios verdadeiros e com corretas intenções: “A função do pensamento prático é mais propriamente a de obter a verdade que corresponde à intenção correta”.
Deliberamos sempre sobre aquilo que está em nosso poder fazer e pode ser feito, ou seja, estamos sempre no domínio dos meios, deliberamos sobre os meios e não sobre os fins, estes fins são o que desejamos alcançar, mas não deliberamos sobre eles, são uma espécie de primeiros princípios que aceitamos e desejamos. Depois temos as circunstâncias, o contexto factual onde nos encontramos e que interfere no processo deliberativo. A deliberação permite-nos ver o que podemos escolher. Aqui, escolha e deliberação são coisas distintas. A escolha é um desejo racional, o desejo diz respeito à finalidade e a escolha aos meios. A escolha pode ser definida como “um desejo deliberado de coisas que estão ao nosso alcance, enquanto a deliberação nos diz o que está ao nosso alcance escolher”.
Mas voltando à decisão, podemos dizer então que ela é o princípio da ação e que a intenção e o cálculo com vista ao atingimento de um objetivo final, são, por seu turno, o princípio da decisão. Antes de ser tomada uma decisão que determinará uma ação, estamos no âmbito das intenções e dos cálculos, estamos no domínio onde operam o poder de compreensão e as disposições do carácter. Esta fase inicial do processo de decisão é determinante no sentido de que é ela que vai levar um líder a agir bem ou mal. Mal e bem não existem por si só na ação, são apenas compagináveis no âmbito do poder de compreensão e nas disposições de carácter, ou éticas. Agir bem é um fim em si mesmo, e terá na sua génese uma boa decisão. A intenção deve seguir esta direção, a do bem decidir e, por conseguinte, a do bem agir.
O líder faz parte desta engrenagem tripartida e, por essa razão, deve demostrar uma compreensão intencional, pois esta é o princípio da mudança, é daqui que tudo parte, é aqui que se inspiram as suas decisões, de onde nascem as ações que serão depois vistas como boas ou más.
Decidir bem implica sempre percorrer um caminho onde o fim último será a desocultação da verdade mesmo que seja para a negar. Esse caminho implica pôr em prática, segundo Aristóteles, cinco operações da alma: a perícia, o conhecimento científico, a sensatez, a sabedoria e o poder de compreensão intuitiva. Todas elas são importantes quando a preocupação é a da liderança e, em concreto, a de uma liderança como possibilidade de excelência.
O pensamento científico é uma disposição com capacidade demostrativa e o seu objeto são os entes que têm uma constituição absolutamente necessária, onde não há espaço para o que pode ser de outra maneira. Há eternidade no pensamento científico. Este tipo de pensamento, ou saber, pode ser ensinado e aprendido, neste último caso por indução e por raciocínio silogístico. Se aquela, indução, nos permite, por um lado, atingir os princípios universais, já este, raciocínio silogístico, permite-nos tirar conclusões a partir dos princípios universais. Captar os princípios universais e saber raciocinar com base neles silogisticamente, pode ser importante para se tomar uma decisão, embora possa não determinar uma boa decisão, pode contribuir para despoletar um processo decisório com bases firmes, e mais adiante veremos que operando em cooperação com a sensatez e o próprio sentido orientador, poderá encaminhar um processo decisório no sentido da excelência autêntica.
Já a perícia nada tem que ver com o conhecimento científico e desenvolve-se no âmbito das coisas que podem ser de outra maneira, ou seja, fora do pensamento científico, onde as coisas são só de uma maneira. Neste campo da perícia, Aristóteles distingue o que é produtível do que se realiza através da ação; fala de uma disposição produtora e de uma disposição prática, respetivamente. Toda a perícia tem como finalidade trazer alguma coisa à existência, produzir algo. Nessa medida, Aristóteles conclui a sua definição dizendo que uma perícia é o mesmo que uma “disposição produtora segundo um princípio verdadeiro”. Não se trata, pois, de uma disposição prática, esta vive no campo da ação e não no da produção. Saber produzir alguma coisa, trazer alguma coisa à existência, fazê-lo de acordo com um princípio racional e verdadeiro, como por exemplo construir casas ou outra coisa qualquer, tem também a sua importância quando falamos de liderança, na medida em que um líder, deve também conhecer o modo como pode trazer alguma coisa à existência, não obstante, o que se lhe exige é uma disposição prática, no campo da ação e não tanto no da produção.
Distante do pensamento científico, mas com uma importância determinante no processo decisório, está a operação da alma relacionada com a sensatez. Esta não é nem conhecimento científico nem perícia. O sensato é aquele que delibera bem sobre as coisas que são boas para si e boas em geral. Os sensatos sabem calcular de modo correto a forma de chegar a um objetivo final sério. Na verdade, é isto que se pede a um líder que faça, saber escolher os meios certos, para atingir um resultado esperado. De um líder espera-se sensatez, que não é nem conhecimento científico nem perícia, isto é, um líder pode até operar bem com um e outra, mas se não tiver sensatez não vai saber decidir bem.
Esclarece-se apenas que a sensatez não pode ser conhecimento científico porque acontece no âmbito das coisas que podem sempre ser de outra maneira e também não pode ser perícia porque a sensatez é do género da ação e já vimos que a perícia é do género produtivo. E Aristóteles conclui desta maneira: “Resta, então, que a sensatez seja uma disposição prática de acordo com o sentido orientador e verdadeiro em vista do bem e do mal para o Homem”.
Relembra-se que estamos a tentar responder à segunda pergunta inicialmente formulada, ou seja, como decidir bem? Podemos agora dizer que decidir bem é compaginável no domínio da ação e não no da perícia produtiva e de acordo com a sensatez e com a prudência, esta última permite conservar a sensatez uma vez que nos ajudará a determinar o que é o bmm para nós, em particular, e para os homens, em geral. Ora a prudência deverá ser apanágio de um líder, na medida em que será ela que lhe vai dar a lucidez necessária para discernir o que é bom para si, em particular, e para os outros, em geral (para a equipa, a organização, a empresa, um Estado. etc.). A sensatez será no fundo a sabedoria prática, a tal disposição prática, que o leva a agir de uma forma orientada e baseada num princípio racional e verdadeiro, já a prudência, permite-lhe conservar este modus operandi e encaminhando-o para o bem. Ou seja, é uma orientação em vista do bem. Esta conjugação permite evitar a perversão, porquanto é esta que destrói qualquer possibilidade de ação, nessa medida destrói também qualquer possibilidade de decisão, na medida em que esta, sendo o princípio da ação, fica sem o seu conteúdo útil. É contra a perversão como possibilidade extrema incapacitante que cumpre agir de forma sábia e sensata.
Sabendo que a alma humana tem duas dimensões capazes de razão, Aristóteles esclarece que a sensatez é a excelência de uma delas, daquela parte que sendo capaz de razão é também capaz de opinião. Importa dizer que a sensatez vai para além do que é meramente racional, apesar de integrar essa dimensão racional da alma, um homem sensato não se esquece nunca de o ser, enquanto um homem racional pode esquecer-se de algum facto ou preceito. A sensatez, nesta medida, supera a própria razão.
Falámos já do conhecimento científico, da perícia e da sensatez, mas termos de concluir que estas três operações da alma, apesar de nos conduzirem à verdade, não nos permitem captar os primeiros princípios, por essa razão, o poder de compreensão intuitiva pode ser o caminho para a desocultação dos referidos primeiros princípios.
A sabedoria é o ponto de equilíbrio onde o conhecimento científico e a compreensão intuitiva permitem alcançar o que é mais estimado e mais importante em toda a natureza, permitem encontrar o bem e, nessa medida, focando-nos no líder, permite que este delibere bem. Não se exige outra coisa a um bom líder que não seja uma boa deliberação. Deliberar bem é atributo do líder sensato, daquele que procurar atingir o melhor dos bens, não é suficiente ser o bem, deve ser o melhor de todos os bens, e fazê-lo através de ações humanas que são conformadas com um cálculo. Este é o equilíbrio entre o conhecimento científico e a compreensão intuitiva que devem convergir no homem sensato como dois rios que prosseguem os seus cursos até ao mar. Assim o diz Aristóteles: “A sensatez é uma disposição atuante sobre o horizonte prático, de tal forma que se deve possuir ambas as formas de saber (o universal e o particular), mas mais do particular do que do universal. Deve haver, contudo, também aqui uma perícia orientadora que lança as bases a partir dos princípios fundamentais”.
Aristóteles distingue a sensatez da perícia política no que diz respeito às suas essências, dizendo que a sensatez legisladora diz respeito ao Estado que, ao legislar, cria as bases no que diz respeito aos princípios fundamentais e a perícia política está focada nas circunstâncias particulares que se vão formando. A sensatez, no entanto, diz também respeito ao indivíduo, porque o que trata bem de si próprio é também sensato, já o que tem perícia política, trata também de diversas outras coisas. Um líder terá também de ter, indiscutivelmente, esta perícia política, ela legisla sobre o que se deve fazer e o que devemos evitar e o fim que ela prossegue, envolve os fins restantes, trata-se do bem humano: “…o bem que cada um obtém e conserva para si é suficiente para se dar a si próprio por satisfeito; mas o bem que um povo e os Estados obtêm e conservam é mais belo e mais próximo do que é divino”.
A sensatez já sabemos não é conhecimento científico, ela leva-nos ao limite extremo de cada caso particular, e a ação é isso mesmo, um caso extremo que exige também um poder de compreensão extremo, exige uma espécie de intuição. Contudo, a sensatez difere da intuição, esta conduz-nos aos princípios que não exigem qualquer esclarecimento (axiomas), e aquela aos tais limites extremos de cada situação em particular. Mas a intuição pertence mais ao âmbito do conhecimento científico do que ao da sensatez.

Nota: a segunda e terceira parte deste artigo serão publicadas nas próximas semanas.

Por: Catarina Barosa, diretora editorial

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