58 anos: um derrotado da vida

1998: é o ano do Nobel, a conquista da derradeira muralha de Josephville, a cidade ideal de Saramago referida numa crónica em 1968, contraposta à cidade real de que desde menino se sentira expulso, pelo menos excluído.

Filho de um casal rural sem terra migrado para a cidade, uma mãe analfabeta e lavadora de escadas, um pai polícia de bairros pobres de Lisboa, sentira o peso da discriminação, tivera de interromper os estudos no liceu, transferido para uma escola técnica por carência de recursos da família, tirara um curso de serralharia mecânica e tornara-se serralheiro do então principal hospital da cidade enquanto frequentava à noite a única biblioteca aberta até às 23 horas. Tinha um sonho desde a adolescência, ser escritor, assim o dissera aos amigos quando debatiam sobre o seu destino de adultos, mas tivera o seu primeiro livro apenas aos 12 anos e, na juventude, pedira um empréstimo de 300 escudos para comprar livros, os quais, desprovido de estante em sua casa e de dinheiro para a comprar, alojara num armário da cozinha. Conseguira passar a empregado de escritório e casara (primeira muralha conquistada: de operário, torna-se pequeno burguês dos serviços), continua a ler como autodidata, anda sempre com um ou dois livros na mão, publica um romance falhado, escreve outro, para o qual já não consegue editora, vivendo angustiadamente os fracassos editoriais, e, num café, desprovido de contactos com os meios intelectuais e universitários de Lisboa, já com cerca de 30 anos, conhece um editor que o convida a integrar a editora no setor da produção, mudando-lhe radicalmente a vida (segunda muralha: de escritor falhado e leitor torna-se editor, convivendo com escritores portugueses de nomeada).

Trabalha cerca de 12 anos como “serviçal” de escritores e intelectuais, é o funcionário que põe os livros na rua, vai granjeando contactos, de que, ainda que elo mais fraco, se sente honrado, edita um livro de poesia, depois outro, totalmente fora da atmosfera poética da década, faz traduções do francês, escreve crónicas para jornais, alcança alguma notoriedade entre o meio jornalístico, então repleto de escritores, que classifica negativamente de “corporação literária” (terceira muralha: a conquista de um lugar no jornalismo).

Revoltado contra a cidade totalitária, que, por maior o esforço, nunca lhe reconhecera valor, contra a guerra colonial, a prisão de amigos, a opressão política do regime, adere ao Partido Comunista Português (PCP) pressupondo que a sua cidade ideal, Josephville, só poderia ser conquistada politicamente. Dá-se uma revolução na cidade, assume a direção de um dos maiores jornais, porventura com a colaboração do partido, e aqui escreve como um comunista puro (quarta muralha: a tentativa de construção política de Josephville), a revolução sucumbe e fica desempregado, não tem sequer o apoio dos seus camaradas, que o presumem excessivamente radical. A nova classe política afasta-se de quem tanto se comprometeu, Mário Soares é para ele, então, o inimigo principal, regressa à tradução, donde tira o sustento, escreve contos, novo romance, de grande qualidade, de acordo com o espírito literário da época, de desconstrução das categorias clássicas do romance, falhado, porém, como os anteriores, só lhe resta experimentar de um modo radical aquilo que desde a adolescência desejara ser: escritor.

Isola-se no Alentejo, a região mais pobre de Portugal, vive entre os camponeses, ouve as suas histórias, os seus anseios familiares, os desejos sociais, regressa a Lisboa e começa a escrever mais um romance, retratando-lhes a oralidade, as histórias de humilhação e miséria, escreve desprezando as indicações da gramática, da arte tradicional de bem escrever um romance. Não é aceite por duas editoras, que, com a fama de comunista do autor, nem o devem ter lido. Encontra acolhimento numa casa editorial de esquerda, recentemente criada, e provoca o espanto dos leitores, não pelo tema, mas pelo tom, pelo estilo, pelas audácias morfológicas e sintácticas, ele, que se limitara a escrever como o povo falava. Escreve novo romance, com o mesmo estilo, mostrando, à Brecht, que o construtor dos grandes monumentos da história não tinha sido a elite, mas o povo trabalhador; louva a mulher através de uma rapariga de 18 anos que vê os corpos por dentro quando acorda e antes de comer pão; louva um farroupilha sem eira nem beira, mas de princípios éticos invioláveis, os dois unidos a um frade visionário que quer voar; critica um rei megalómano cujo poder nasce da exploração de riquezas alheias, coloniais; e elogia um compositor italiano que vive para a música: agora sim, a quinta muralha de Josephville é conquistada, verdadeiramente a única que desde a adolescência ambicionava conquistar: ser escritor. Tem 60 anos, uma bela figura, magro, alto, cabelo comprido que escorre de uma nuca calva, óculos quadrados de intelectual compensados por um boné rural, patilhas ribatejanas. Aos 60 anos, ser escritor significa para ele ter leitores, o que nunca tinha acontecido, e viver do seu trabalho de escrita, o que também nunca acontecera, sempre necessitado de expedientes (jornais, traduções) para sustento próprio.

Por: Miguel Real, escritor e ensaísta

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